ROSH HASHANÁ 5787

 

Hoje acabei de guardar travessas, talheres e as toalhas já lavadas do jantar de sexta-feira. Deu trabalho? Deu. As compras começaram muitos dias antes, foram várias saídas e sacolas para ter o que precisava.

Viver dá trabalho. Cuidar da saúde e da casa dá trabalho. Viver com propósito dá mais trabalho ainda.

O que é trabalho? Doença é trabalho. Pesado. Forçado.

Fazer o jantar de Rosh Hashaná é ter um propósito.

Inevitável lembrar da minha avó e minha mãe planejando, preparando e recebendo para o jantar e hoje eu sou essa avó e mãe.  Sinto-as no cheiro que fica na minha cozinha enquanto faço a comida, ao utilizar as mesmas pequenas cumbucas em que serviam o pepino azedo, no pano bordado que continuo usando sobre as chalot. Isso tudo me enche de saudade e me fazem crer que é meu dever continuar.

Então faço com vontade o que poderia ser deixado de lado, porque sei que as novas gerações também apreciam estes encontros.

Na verdade, foi adorável. Marido, filhos, noras e netos estavam felizes, à vontade em casa. Trocamos cumprimentos, presentes, beijos, conversa e cada casal trouxe sua colaboração. Rezamos, comemos, bebemos, brindamos.

Acendemos as velas, lindas e com cheiro de mel, fizemos as orações de Shabat e de Rosh Hashaná, a casa estava iluminada, eu estava feliz.

Não faltou nada: nos cálices pequenos vinho e suco de uva para a reza, chalot redondas, maçã com mel. Mais damasco, tâmara, romã. Esta é a tradição que aprendi.

De entrada ofereci arenque marinado e guefilte fish feito em casa. Achei carpa mesmo e comemos no almoço de sexta as cabeças com muito gosto: “que sejamos colocados na cabeça e não na cauda”.

Chegou junto a história de sempre: quando eu era criança as carpas chegavam vivas em casa e eram colocadas na banheira, branca e a única da casa. Quem não tinha tomado banho ficava sem tomar porque a banheira estava ocupadíssima com a presença daquelas carpas escuras e bigodudas. No dia seguinte eu não queria entrar naquela banheira. 

Lembro que a compra da carpa não era simples, era necessário encomendar com antecedência e minha mãe sempre ficava nervosa porque o rapaz não entregava no horário combinado. Hoje continua sendo uma tarefa difícil pesquisar as peixarias que vendam carpa, não se encontra com facilidade esse peixe de rio.

Este ano uma amiga avisou onde encontrou, confirmei e lá fomos, meu marido e eu, comprar o bendito no Mercado da Lapa.

Não precisei colocar na banheira: o peixe é entregue limpo cortado em filés e eu peço para embrulharem as cabeças e espinhas dorsais separadas para fazer o caldo. Comprei mais do que precisava e estava tão fresco que resolvi mudar um pouco a receita e não adicionar tantos ovos e cebolas (como antigamente era preparado porque era necessário aumentar o volume) justamente para os bolinhos terem mais carne.

Preparei uma bandeja linda, cada bolinho com sua kipá cenoura, acompanhado do pepino azedo e da raiz forte com beterraba.

Todos esperam o guefilte fish, comem, gostam e repetem. Não foi assim desta vez. Eu dei a primeira mordida e falei: " tá com muito gosto de peixe". Alguns comeram e acharam graça no comentário. Outros concordaram comigo. Fiquei um pouco decepcionada, mas serviu de lição: em receita de vó e de mãe não se mexe.

Continuou o jantar com uma pesada baixela de ossobuco desmanchando, acompanhado de purê de batatas, salada e arroz com alho poró.

Falo para as crianças que é carne de dinossauro, porque tem o osso grande com tutano no meio da carne, o que dá muita força. Estava muito bom!

Todos ajudaram a tirar a mesa para servir a sobremesa: frutas frescas e em compota, pudim, bolo de mel molhadinho, biscoitos de amêndoa, café. Como estava frio e a mesa tão farta, até esquecemos do sorvete.

As crianças brincaram, cantaram, rimos e a noite foi deliciosa. A vida é feita de momentos e bons momentos ficam para sempre na memória.

Vou ficar feliz se meus netos falarem “minha bube fazia!”

Shaná Tová Umetucá, que tenhamos um ano bom e doce.

E com mais trabalho o ano que vem, se D’us permitir.

Comentários

  1. Ótimos momentos para ficar nas boas lembranças. Shaná Tová. Ruth Szlejf

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  2. Shana Tova Umetuka para todos 🙏

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  3. Que noite linda você teve! Shaná Tová.

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  4. Emocionante manter os nossos antepassados vivos com as tradições e as lembranças.
    Muita paz neste ano
    Marizilda

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  5. Tradição! Dá trabalho mas vale a pena! Shana Tova Umetuka!

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  6. Shaná Tová uMetuká, Ita!!! tudo de bom!!!

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  7. Ita, como é bom ter uma família
    para comemorar!
    Shaná Tová Umetuká! 🍷🍷
    Sandra Hreiz Grunberg

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  8. Delicioso seu relato das preparações para Rosh Hashana.
    Seus netos certamente vão lembrar no futuro,da vovó e da família ,com um gostinho de saudade!
    Marlene Szpigel





    N

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  9. Como é bom é gratificante esse trabalho!
    Criar memórias para filhos e netos, como as que carrego comigo!
    Obrigada Ita por seu relato!
    Lindo demais!
    😘
    Vera Tempel

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  10. É assim mesmo querida prima ,trabalhoso, mas o prazer de fazê-lo é inenarrável! Shaná Tova!

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  11. Shana Tova


    Eu ainda tenho a panela onde minha mãe fazia o peixe
    SAUDADES

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