NUVENS PASSAGEIRAS

entre os prédios altos da cidade grande
a sombra tampa o sol
a luz apaga a estrela
a esquina esconde a lua

no céu poluído da cidade grande
azul é cinza
nuvem é fumaça
e ninguém sabe pra onde foi o horizonte

aquele amplo
onde elefantes brancos e macios
comem algodão doce voando no azul

aquele longe
onde caretas horrendas
arregalam olhos e evaporam ao vento 

aquele definitivo
onde o mar encontra o céu
e só quem pode 
vê
 
eu continuo buscando

encontro uma fina senhora de perfil
um gordo de bigode
um gato encolhido

já vi de relance uma caveira
uma bota de cano alto
um bebê engatinhando

passou um barco à vela bem pequeno
uma pistola
uma cabeça com turbante

todos fugidios
instantâneos
escorregadios como aquele peixe-espada

todos a espera dos meus olhos
pra criarem senão vida
nostalgia
das nuvens de outros tempos
 
eles estão ao meu alcance
no rendado trêmulo da cortina do quarto
na estampa da toalha da mesa
no granito salpicado do banheiro
 
não os compartilho com ninguém
estão ali só pra mim
tão rápidos que a palavra não alcança
o piscar desfaz

são minhas nuvens passageiras
a enfeitar o instante
a me levar dali adiante

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